-

Pra quê dividir?
Confesso que sou meio desconfiado dessas acções afirmativas baseadas no conceito de raça. Acho que é mais uma forma de segregar do que de reunir as pessoas, principalmente no Brasil onde há tanta confusão nesse assunto, vide as inúmeras “raças e sub-raças” inventadas por aqui, essa terra de tantos morenos, mulatos, criolos, negros, sararás, pretinhos, morenos-claros e morenos-escuros, cor-de-canela, chocolate, bronzeados e outros títulos usados por conveniência, por carinho, por preconceito, por amor, por ódio, etc.
Dividir as pessoas por raça é uma tarefa tão idiota quanto dividir os grão de areia de uma praia pela sua cor e formato. Cientistas já provaram que, genéticamente, os humanos estão completamente misturados, e pouquíssimos são os que não possuem antepassados de várias raças em sua família. Tirando algumas sociedades do extremo-Oriente, algumas sociedades indígenas e aborígenes e os povos esquimós do extremo-Norte, o resto do mundo é basicamente miscigenado.
Então, pra quê dividir? É, no mínimo, muito tolo (ou mal-intencionado, haja vista que existe muita gente lucrando com ONGs que promovem esse tipo de ação) criar cotas para escolas, para o trabalho, para a política, criar prêmios baseados na cor da pele, na religião professada, et all. E os defensores da nova segregação, uma segregação com cara de vendetta, sustentam sua ideologia baseados no fato de que os negros (e de carona, salvas as diferenças reivindicatórias, os homossexuais, os índios, enfim, os que se sentem agravados ou se intitulam minorias) passaram por um período histórico de privações e preconceitos e, por isso, hoje merecem uma contrapartida social que devolva-lhes o tempo perdido. Isso me cheira a “olho por olho, dente por dente”.
Ora, é inegável que seus motivos são justos, mas o desagravo vem em forma de vingança, porque nossa sociedade é diferente, todos estão inseridos no tecido social com, teoricamente, os mesmos direitos e deveres… e eu só digo “teoricamente” por duas razões: 1) o pré-conceito existe sim, mas ele é mais forte quando se divide as pessoas em ricos e pobres do que por raças, salvo alguns casos de patente ignorância; e 2) as minorias só serão minorias se elas se limitarem a crer que são assim, porque todos somos iguais, todos temos nossos direitos garantidos, e, se existe ainda o preconceito, existirá sempre a Lei para corrigir, julgar, punir, e manter a ordem social.
Trata-se de um ‘complexo de vira-latas’, expressão cada vez mais em voga, principalmente no meio político. E nós sabemos que tem muita gente que vive disso, de tirar proveito de ações sociais, de satisfazer-se com a esmola do governo em vez de lutar de verdade por reconhecimento. Trata-se de gente que, por má-vontade, por indolência, por ingenuidade ou por simples ignorância, julga que “os outros” são os inimigos, que “eles, os patrões, os doutores, os manda-chuvas” precisam devolver aos “pobres-coitados” parte do seu lucro, que eles julgam ser-lhes de direito, por terem sido “roubadas” as suas oportunidades de também ser “doutor, patrão”, e que é preciso dividir para alcançar alguma forma de poder, de vingar seus antepassados, de receber da geração atual o pagamento pelas maldades cometidas por gerações anteriores.
É justo? Quem define quais de nós são os ofensores e quais são os ofendidos? Por exemplo, vá até o centro do Rio de Janeiro e escolha dez pessoas aleatoriamente; numere cada um deles e peça aos passantes que digam a que raça pertence cada pessoa designada por determinado número. Você vai ver que é impossível chegar a um consenso. Então se nós, no dia-a-dia, não conseguimos dar uma resposta satisfatória para a questão racial, quem ficará a cargo de decidir quais de nós serão merecedores de figurar entre as “castas” favorecidas por suas acções afirmativas?
Não tenho soluções para essa questão espinhosa, mas deixo a pergunta como um alerta a todos os que ainda podem dar-se o luxo de pensar o mundo com responsabilidade e independência.
- Marcelo Sousa. Poeta, ensaísta e letrista. Executivo de Comex. Consultor de Logística Internacional. Blogueiro, twitteiro. Ator e roteirista. Fotógrafo. Enófilo, chocólatra. Torcedor do América do RJ. Enfim, só mais um negrinho de coração simples, mas de disposição severa!
-