Arquivo da categoria ‘Ensaios’

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Pra quê dividir?

8 de novembro de 2010

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Pra quê dividir?

Confesso que sou meio desconfiado dessas acções afirmativas baseadas no conceito de raça. Acho que é mais uma forma de segregar do que de reunir as pessoas, principalmente no Brasil onde há tanta confusão nesse assunto, vide as inúmeras “raças e sub-raças” inventadas por aqui, essa terra de tantos morenos, mulatos, criolos, negros, sararás, pretinhos, morenos-claros e morenos-escuros, cor-de-canela, chocolate, bronzeados e outros títulos usados por conveniência, por carinho, por preconceito, por amor, por ódio, etc.

Dividir as pessoas por raça é uma tarefa tão idiota quanto dividir os grão de areia de uma praia pela sua cor e formato. Cientistas já provaram que, genéticamente, os humanos estão completamente misturados, e pouquíssimos são os que não possuem antepassados de várias raças em sua família. Tirando algumas sociedades do extremo-Oriente, algumas sociedades indígenas e aborígenes e os povos esquimós do extremo-Norte, o resto do mundo é basicamente miscigenado.

Então, pra quê dividir? É, no mínimo, muito tolo (ou mal-intencionado, haja vista que existe muita gente lucrando com ONGs que promovem esse tipo de ação) criar cotas para escolas, para o trabalho, para a política, criar prêmios baseados na cor da pele, na religião professada, et all.  E os defensores da nova segregação, uma segregação com cara de vendetta, sustentam sua ideologia baseados no fato de que os negros (e de carona, salvas as diferenças reivindicatórias, os homossexuais, os índios, enfim, os que se sentem agravados ou se intitulam minorias) passaram por um período histórico de privações e preconceitos e, por isso, hoje merecem uma contrapartida social que devolva-lhes o tempo perdido. Isso me cheira a “olho por olho, dente por dente”.

Ora, é inegável que seus motivos são justos, mas o desagravo vem em forma de vingança, porque nossa sociedade é diferente, todos estão inseridos no tecido social com, teoricamente, os mesmos direitos e deveres… e eu só digo “teoricamente” por duas razões: 1) o pré-conceito existe sim, mas ele é mais forte quando se divide as pessoas em ricos e pobres do que por raças, salvo alguns casos de patente ignorância; e 2) as minorias só serão minorias se elas se limitarem a crer que são assim, porque todos somos iguais, todos temos nossos direitos garantidos, e, se existe ainda o preconceito, existirá sempre a Lei para corrigir, julgar, punir, e manter a ordem social.

Trata-se de um ‘complexo de vira-latas’, expressão cada vez mais em voga, principalmente no meio político. E nós sabemos que tem muita gente que vive disso, de tirar proveito de ações sociais, de satisfazer-se com a esmola do governo em vez de lutar de verdade por reconhecimento. Trata-se de gente que, por má-vontade, por indolência, por ingenuidade ou por simples ignorância, julga que “os outros” são os inimigos, que “eles, os patrões, os doutores, os manda-chuvas” precisam devolver aos “pobres-coitados” parte do seu lucro, que eles julgam ser-lhes de direito, por terem sido “roubadas” as suas oportunidades de também ser “doutor, patrão”, e que é preciso dividir para alcançar alguma forma de poder, de vingar seus antepassados, de receber da geração atual o pagamento pelas maldades cometidas por gerações anteriores.

É justo? Quem define quais de nós são os ofensores e quais são os ofendidos? Por exemplo, vá até o centro do Rio de Janeiro e escolha dez pessoas aleatoriamente; numere cada um deles e peça aos passantes que digam a que raça pertence cada pessoa designada por determinado número. Você vai ver que é impossível chegar a um consenso. Então se nós, no dia-a-dia, não conseguimos dar uma resposta satisfatória para a questão racial, quem ficará a cargo de decidir quais de nós serão merecedores de figurar entre as “castas” favorecidas por suas acções afirmativas?

Não tenho soluções para essa questão espinhosa, mas deixo a pergunta como um alerta a todos os que ainda podem dar-se o luxo de pensar o mundo com responsabilidade e independência.

- Marcelo Sousa. Poeta, ensaísta e letrista. Executivo de Comex. Consultor de Logística Internacional. Blogueiro, twitteiro. Ator e roteirista. Fotógrafo. Enófilo, chocólatra. Torcedor do América do RJ. Enfim, só mais um negrinho de coração simples, mas de disposição severa!

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Um Drink No Inferno

20 de outubro de 2010

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Recorri ao meu bar na falta de paz e sono: 60ml de whisky, 20ml de rum ouro e 20ml de licor de pêra. Mexido com bastante gelo. Chamei esse drink de “solidão”, mas poderia ser também “saudade”.  Forte, porém doce. Inebria devagar, como os tentáculos de um polvo movendo-se num abraço triste mas aconchegante. Faz frio, e eu estou só. Cada átomo do meu corpo é um barco á deriva, sem um porto onde possa ancorar.

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#9- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

11 de junho de 2009

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#9- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Aos quarenta anos ele ainda morava com o pai, um sujeito calado, viúvo com namoradas diversas e sabidas, senhoras desinibidas e amantes da cerveja e da pensão dos bons viúvos. A casa era um templo de desolação. Teias de aranha e poeira por todos os lados. Janelas quebradas, ou com vidros muito amarelados, mesas e cadeiras sujas, danificadas. O banheiro sempre mal-cheiroso. A geladeira vazia. Panelas amassadas. As paredes manchadas pelo limo do tempo e pela mágoa deixada por todos os que passaram por ali, e pela pátina esverdeada das muitas infiltrações do encanamento antigo. Respirava-se mal naquele lugar. Os mortos da família vagavam pelos corredores em pleno meio-dia, gemendo e sorrindo com uma careta indecifrável, como uma dor que se quer manter até após a morte. Jonas, na barriga daquela baleia assassina, aquele apartamento assombrado, vivia sem grandes expectativas. Passava os dias deitado no sofá da sala, asisstindo a televisão entre chuviscos e borrões. A barba crescendo, as mãos frias, o corpo flácido e inerte. Comia pouco, e pouco via o sol diretamente. Ouvia a voz do mundo pelas frestas da porta, nada mais. Tivera mulheres, bons empregos, muitos amigos. Acostumara-se á boa comida, o bom vinho. Mas na metade da sua vida Deus resolveu dar-lhe as costas, e o diabo não desejou negociar sua alma. Os amigos nunca o entenderam, sempre o olhavam como uma criatura estranha, um animal que mantinham por perto por força única das circunstâncias. Mas quando seus dias ficaram cinzentos para sempre, todos partiram. Ligavam no Natal, alguns no dia do seu aniversário, mas com o tempo foram esquecendo, desaparecendo, vivendo suas próprias vidas. De fato, o filho parecia mais velho que o pai, que seguia impávido rumo a uma boa vida, comprara outra casa, e deixara o filho para trás, como uma semente que se sabe que não vai germinar. Jonas, na barriga do Leviatã, viveu, vive, viverá pelos séculos dos séculos, deitado no seu sofá, assistindo TV, distraído da própria vida, esquecendo-se de morrer.”

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#8- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#8- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Descemos a campina correndo como loucos, respirando o ar da manhã como se fosse o primeiro dia das nossas vidas. Mãos dadas, olhos fechados. Eu podia imaginar seu sorriso, e ela o meu, e isso nos fazia cúmplices da maior alegria de todos os tempos. Algumas vezes parávamos, sentávamos na grama ainda orvalhada, e ríamos largamente, e depois nos beijávamos como se com um beijo fosse possível soldar nossas almas eternamente. Seguimos o rio saltando pedras redondas e brilhantes. Subimos um monte em direção ao Ipê Amarelo onde havíamos pela primeira vez jurado amor eterno, séculos atrás. Sentamos ao pé da nossa árvore, e esperamos o sol nascer. Vimos a lua despedir-se no céu já muito azul, e abraçados sentimos o beijo quente de Deus na nossa face, nascendo no horizonte, transformando nossos corpos numa poeira faiscante que o vento levou para sempre…”

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#7- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#7- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Estava lendo Ezra Pound quando decidí morrer. Lembrava muito de minha mãe, falecida há quase dez anos. Lembrava de namoradas que amei demais, e perdí estupidamente. Lembrava amigos que partiram para longe. E sobretudo tinha saudades de tempos que não viví, e recordava uma vida inventada. Tinha comprado uma garrafa de Johnny Walker Gold Label e uma cartela de diazepan. Tinha medo da morte, covarde. Mas queria morrer, tranquilo, por isso o engenhoso plano. Uma overdose. Tomei cinco pílulas, achei que fosse suficiente. Comecei a beber. Jazz, blues, sons que eu adorava. Cantei baixinho na sala escura. A garrafa pela metade, ainda brilhando. Sentí minha alma escapando por meus poros. Troquei a música. Marley cantando ‘Redemption Songs’. Era hora de morrer. Fechei os olhos. Sentí dor, mas não sabia onde. Meus ossos viraram espuma de sabão. Minha pele de vidro doía demais. A campainha tocou. Era Fernanda. Sabia que era ela, sentia seu cheiro…”

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#6- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#6- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Encontrei-a numa igrejinha da Lapa. Ela chorava fazendo segredo, seus soluços denunciando o esforço vão. Eu, protestante, estava ali apenas pelo interesse artístico. O local rendia belas fotografias. O ambiente etéreo, as velas, a penumbra, a serenidade, as imagens dos santos. Fotografei-a num relance. Linda. O vestido de seda azul a fazia parecer muito recatada, mãe de filhos, aliança no dedo, saindo dos trinta anos, mas quando levantou, seus contornos faziam volumes insidiosos, perversos… os seios, a cintura, as nádegas firmes, aquilo tudo sob a tênue coberta de seda quase transparente. Meu Deus! Pensei, quase gritando. Segui-a. Num restaurante sombrio, ela pediu vinho. Pedí o mesmo. Olhei-a demais, ela percebendo. Sorri, sem jeito. Ela sorriu, angelical. Uma amiga chegou. Abraçaram-se. Sorriram. Conversaram, mãos em carinhos mal escondidos. Beijaram-se na boca, arfantes como crianças, e foram embora, quentes como o vento da tarde.”

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#5- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#5- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Bêbado. Trêmulo. Não dormia há três noites. Bebia vodka com suco de laranja, batizada com duas pílulas de qualquer remédio para dor-de-cabeça que estivesse por perto. Estava escrevendo um livro que não era um livro. Não havia uma história, mas trechos de muitas histórias. Talvez coisas vividas, coisas ouvidas, coisas sonhadas. Digitava as frases soltas, entretecia momentos, contava segredos, pecados meus e alheios, ambiguidades desconcertantes. Troquei nomes de pessoas, mas não fiz questão de ocultar-lhes as aventuras. Talvez eu fosse descoberto. Talvez descobrissem que eu sou o vilão da história. Mas que história? Eu estava mesmo era escrevendo meu epitáfio, em capítulos. Minha herança era feita de palavras sem redenção. Já havia escrito dezenas de trechos inesquecíveis de livros imaginários, e reunia-os pela primeira vez em um único lote. Não gostei do que ví, e isso me fez ter a certeza de que era uma obra-prima.”

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#4- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#4- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Ele tocou minha mão naquela noite, e chorou. Todos sabíamos que estávamos vivendo os últimos dias. Eu disse a ele, Rabi, ainda podemos fugir, ensinar a outros, formar um exército. Mas ele não me respondeu. Apenas olhou-nos, como quem vê muitos caminhos, e deu a bênção. O pão tremia em suas mãos. Derramamos o vinho, cantamos nossa dor. Horas tristes, lentas, amarguradas. Ele saiu para caminhar. Sabíamos o que queria. Ela. Esperava na tenda, armada longe de todas as outras. Fizeram amor, e também o sexo mais brutal que homem e mulher poderiam fazer. Por fim beijou-a no ventre e mandou-a embora, levando sua semente. Os homens estavam agitados. Percebiam dúvidas. Ele passou por nós, descalço, quase flutuando. Mas sentimos o peso daquela alma. Morrer, partir. Ele decidira. Quando os soldados chegaram, encontraram apenas a nós, pescadores e camponeses. E quando o Sol surgiu, uma cruz vazia restava no monte, sem um mártir para dar-lhe um nome.”

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#3- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#3- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Ela chegou sorridente, dona do mundo. Era a primeira vez que eu a via, mas já conhecia aquela de quem meus amigos tanto falavam. Era linda, cada detalhe minuciosamente perfeito. Ví, ou imaginei, seios pequenos e duros, e nádegas convidativas, sob o vestido de seda. Nos cumprimentamos, eu a toquei, e descobrí-me apaixonado. Sentí-lhe um seio com meu cotovelo na confusão de uma dança. Fiquei ereto demais. Mas havia o marido, um burocrata gordo e rico. E o amante, surfista, moreno, animal atroz. Noite estranha. Bebí um pouco, fiquei alerta. Ví o burguês sorrindo, fingindo-se de cego. Ví o gatuno encoxar a donzela e falar vilanias ao pé do ouvido. Todos sabiam, e aprovavam. Asco! Olhei-a fundo nos olhos azuis, como quem olha um abismo e sente a mórbida e excitante vontade de saltar. Esperei, pensando e querendo muito. Na despedida declarei-lhe amor. Ela sorriu, magistral. Beijou-me no rosto e foi-se, como um sonho ruim ou um pesadelo bom demais.”

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#2- Trechos inesquecíveis de livros imaginários.

8 de junho de 2009

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#2- Trechos inesquecíveis de livros imaginários:

“Não podíamos ver os vilões no escuro. Mas atirávamos mesmo assim, muito á esmo. Dos becos surgiam exércitos de ratos de camiseta e chinelos, trazendo fuzis cospindo fogo. Acertei amigos e inimigos. Polícia anunciava confronto lá em baixo. Eram por nós? Dos nossos? Comprados? Vendidos? Ou eram os gaviões? Corrí por vielas, pisando em lama. Engolí seco, coração na boca. Lembrei maldades. Lembrei sorrisos. Eu era bandido? Era mocinho? Não havia tempo para saber. Achei um barraco de luz acesa, casa de Silvia. Bonita, adolescente, sozinha. Pai caminhoneiro indo longe, longe. Entrei derrubando porta e sorrindo sem jeito. Pedí cama e luz apagada. Dormimos, eu pensei. Mas ela não. Coçou-me as costas com faca de cozinha, afiada para carnes duras. Sofrí abafado pelo cobertor molhado. Não gritei. Morte ruim me chamava, e eu esperei por ela sonhando com uma casinha no campo, com cachorro, esposa, filhos, e um jardim com margaridas e alecrins.”

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