
Relações Indecentes
13 13UTC fevereiro 13UTC 2011
Relações Indecentes
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2011
O samba é o ritmo nacional por excelência, derivado do ‘maxixe’, do ‘lundu’ e da ‘umbigada’ – gêneros africanos – nasceu como manifestação popular marginal. Os negros da Bahia, transferidos para o Vale do Paraíba, após o advento da abolição, viram-se perdidos pelo território brasileiro e muitos decidiram instalar-se na capital da República, a Guanabara (Rio de Janeiro) em sua maioria na Gamboa, no Morro da Conceição e na Saúde. Não vou me aprofundar nessa história bonita e muitas vezes romanceada, mas se o digno leitor ficou curioso, poderá pesquisar nos oráculos modernos, leia-se Google e Wikipedia.
Eu, poeta e cronista dos meus tempos, quero falar de algo mais atual: o incêndio da “Cidade do Samba” essa semana no Rio de Janeiro. Alguns galpões foram totalmente destruídos, mas, de forma geral, nossos bombeiros foram rápidos e debelaram as chamas evitando maior catástrofe, limitando as perdas, que foram significativas, a duas ou três “escolas de samba”, termo com o qual eu não concordo, pois para mim são “empresas de samba”. Mesmo assim o assunto vem dominando a mídia, rivalizando apenas com a Revolução Egípcia, essa sim digna de menção, pois foi a primeira revolução nascida do povo e organizada pelo povo usando como arma, pela primeira vez, a internet, usando as mídias sociais (leia-se Twitter, principalmente) como forma de chamar o povo às ruas, com hora marcada, e depois divulgar as notícias dos protestos e os avanços em cada cidade.
Mas voltando ao samba… escolas foram prejudicadas pelo fogaréu, cuja origem ninguém sabe, e os jornais correram para explorar a dor do povo que estava vendo seu sonho virar cinzas. Povo? Eu que sou carioca e vivo o samba no dia-a-dia, não por escolha mas por simples força do ambiente, gosto de samba, venero os clássicos, acho lindo o novo renascimento do samba pelas mãos de gente como Pedro Miranda, Roberta Sá, Diogo Nogueira, o grupo Casuarina, Thereza Cristina e o Grupo Semente e tantos outros… mas quando o assunto é “escola de samba” acho difícil comentar sem certo constrangimento.
As escolas de samba nasceram dos blocos carnavalescos entre 1910 e 1930, quando o povo se juntava e fazia o maior espetáculo espontâneo da Terra. Mas hoje, esse espetáculo, que talvez continue sendo “o maior da Terra”, é uma extensão da força dos banqueiros do jogo do bicho e dos traficantes de drogas (difícil estabelecer uma diferença entre eles) que encontraram no samba a forma perfeita de lavar seu dinheiro sujo e manter o controle social através da simpatia e fascinação que o samba tem não só no nosso país, mas no mundo!
Todo mundo sabe quem são os presidentes, os patronos, os chefes das escolas de samba. Alguns deles estão presos. Muitos são personagens famosos do mundo da contravenção. E nas quadras onde o samba é cultuado, paga-se caro para entrar, o que fez do hábito de ir a um ensaio de escola de samba um programa de mauricinhos e patricinhas, negócio lucrativo para os donos, mas onde o pobre, o favelado, entra apenas como coadjuvante. E pior, coadjuvante por opção, por vontade.
É como no futebol, ninguém discute. Mas você pode ser o maior torcedor de um time, se não pagar a entrada para o jogo, você fica de fora! E que favelado pode pagar entre R$30,00 e R$ 50,00 só de entrada todo fim de semana para participar de uma manifestação que acontece ao lado da sua casa e é vista pelo governo como manifestação cultural e social?
A Cidade do Samba, que custou milhões aos cofres públicos, foi dada de graça aos donos das “empresas de samba”. Essas empresas faturam milhões, talvez bilhões todos os anos (pra onde vai esse dinheiro, e os impostos?) e cobram caro por shows em todo o país, e mundo à fora! Assim como as igrejas e os times de futebol, as escolas de samba são um negócio lucrativo e quase sem fiscalização.
Agora vejo na TV o prefeito dizer que vai doar uma grana preta aos “prejudicados” pelo incêndio na Cidade do Samba. Ninguém lembrou que todas essas escolas de samba possuem contratos valiosos com seguradoras e que receberão de volta três vezes mais do que perderam.
Mas o espectador não quer pensar nesses “pequenos detalhes”. Os barões do jogo do bicho e os patrões do tráfico agradecem. E a Cidade Maravilhosa manterá a ordem natural das coisas, pão e circo para os idiotas, que, consternados, emocionados, agradecem a generosidade do nosso governo por estender a mão às comunidades carentes, que tem no samba uma das suas últimas ou únicas alegrias.
Pois é, o carioca já foi mais malandro!
