
Um Telefonema
2 02UTC dezembro 02UTC 2010-
Recebi um telefonema fortuito, inesperado. Logo pela manhã ouvir aquela voz rouca e doce tão perto do meu ouvido foi um choque, mas depois dos primeiros segundos aquilo se tornou uma experiência deliciosa e ao mesmo tempo aterradora. Foi como se eu mesmo, ou uma versão melhor de mim, extraviada em algum lugar do passado, pegasse o telefone só para ter essa conversa comigo:
- “Olha aqui, rapaz, você está indo muito bem, aliás, nós estamos indo muito bem um sem o outro.
-Mas ainda dói, você sabe…
- “Óbvio que dói, estamos vivos, doer é o termômetro por onde medimos isso. Se nada doer mais, estaremos frios, mortos.”
-Eu mudei, e queria ter você de volta…
- “É claro que mudou. Eu mesma também mudei, e daqui do passado onde você me deixou eu também consegui uma forma de prosseguir. Eu criei um futuro descolado do seu.”
-Isso é cruel.
- “Sim, é a vida, lembra? Você nunca poderá mais ser, sozinho, aquilo que poderia ser comigo, mas o que importa é que eu ainda me importo, e sei que tu te importas também. Estou te ligando pra dizer que…”
-Eu te amo!
-”Também gosto muito de você, Marcelo. Agora dorme. Já é tarde.”
-Nunca é tarde!
- “Confia em mim. Já é muito tarde, meu amor. Bons sonhos…”
E foi como se eu pudesse ouvir e sentir o telefone se afastando do rosto dela, enquanto eu tentava com a voz trêmula e vacilante dizer umas últimas palavras, repetitivas e patéticas, que eu esperava que funcionassem como uma corda jogada ao mar a resgatar alguém que se afoga… “Eu te amo!”
E do fundo do limbo azul para onde aquela voz mergulhava de volta, juro que ainda pude ouvir uma resposta: “Também amo você. Adeus.”
E acordei chorando, ou acho que já estava acordado e naquela hora sim fui dormir, chorando. Pouco importa a ordem dos acontecimentos agora. Aquela ligação fora a melhor e a pior coisa que me aconteceu nos últimos tempos, e por isso a compartilho… e agradeço.
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