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Ludmila

9 09UTC fevereiro 09UTC 2010

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Ludmila, inimiga mais amada…

tua ausência é ferro em brasa em meu peito

Te arrancar de mim, das secretas vontades que me agarram do púbis ao peito…

de que jeito?

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Sabbath II

8 08UTC fevereiro 08UTC 2010
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Uma virgem no solstício de inverno
para ler nua á meia noite os versos de Florbela Espanca.
Dante tocando harpa dos quintos dos infernos
enquanto a Medusa chora lindamente como quem canta.
O falo ereto do poeta adentrando abruptamente tuas metáforas
enquanto meninas branquinhas, poetisas, preenchem-se como ânforas.
Os pagãos batem tambores, os crentes tocam violões,
que sinfonia maravilhosa haveria se todos unissem suas canções!
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A Flauta Mágica

7 07UTC fevereiro 07UTC 2010

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Certa noite acreditei estar ouvindo a flauta de Pã.
Mas era só o gostoso efeito do Diazepan!

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O Último Conto

5 05UTC fevereiro 05UTC 2010

O ÚLTIMO CONTO

O sol atravessava as cortinas do quarto como um visitante bruto e inesperado, queimando as pálpebras fechadas daquele homem que se confundia com os trapos jogados por toda a cama, a camisa exibindo uma mancha marrom escura e endurecida, com um cheiro agridoce que ele não conseguia identificar. Seus olhos permaneceram semicerrados, como persianas pesadas, fitando aquela cena meio iluminada, meio acinzentada, meio alaranjada. Um ventilador de ferro estava no chão, caído em uma posição esdrúxula que não permitia exercer sua função de amenizar o calor, mas fazia um barulho claudicante e irritante demais. Era o único barulho que se distinguia, em princípio. Depois o mundo foi acordando ao redor do quarto. No banheiro a torneira chorava um fio d’água, pelo basculante da cozinha alguns pardais piavam, chocavam-se contra o vidro como suicidas alados. Ainda com os olhos semicerrados ele passou a mão direita sobre o rosto e percebeu que sua barba estava maior que o habitual, uma barba mal feita de comunista de classe média. Haviam cigarros apagados sobre o lençol, queimados até a metade. Imaginou que tivera sorte de não ter morrido em um incêndio tão idiota quanto o de um bêbado que dormira fumando cigarrilhas baratas e malcheirosas. Olhou as paredes, lembrou-se que elas foram brancas um dia. Que melancolia perceber aquelas manchas amareladas e esverdeadas por todos os lados. A porta do guarda-roupas estava aberta. Camisas fugiam como lesmas sujas, caindo pelo chão. Sentou-se na cama, mas seus pés não tocaram o chão. Sentiu uma dor imensa no lado esquerdo do corpo. A mancha escura era uma carapaça em sua camisa. Tentou chamar seu cachorro, mas a voz não lhe veio inteligível. Gritou novamente, mas nada aconteceu. Parou, pensou. Estava afônico. E mesmo se pudesse falar, havia subitamente percebido que não lembrava o nome do seu cão. Na verdade nem mesmo tinha certeza se tinha mesmo um cão. – Maldição! Que espécie de sonho é esse? E porque esse gosto horrível na minha boca?  (…) Silêncio. O quarto bagunçado era o seu mundo. O sol lhe queimava o rosto, e por mais que ele buscasse uma posição confortável, não havia como fugir daquela luz que não pedia licença e que, naquele momento era a única prova concreta de que ele estava vivo, e talvez lúcido. Olhou-se por completo, vestia apenas a camiseta branca, manchada pelo caldo agridoce que permanecia ainda uma incógnita. Não vestia nada mais que aquilo, e a visão do seu membro flácido e de suas pernas finas e brancas, com as veias azuis aparecendo como fios de linha sob um tecido mal esticado deram-lhe uma enorme vergonha de si mesmo. Cobriu-se com um pano qualquer. Deitou-se. Precisava pensar. Que dia da semana era aquele? Não parecia um domingo? Poderia adivinhar que fosse uma quinta-feira. Sim, decidiu que era quinta-feira. Sentou-se novamente. Olhou á sua volta e começou um discurso em voz tranquila, mais tranquila do que esperava. – Aqui é o meu apartamento, eu moro em Copacabana, e moro sozinho, e sou ex-professor de Filosofia, e jamais tive filhos, e manco da perna direita, e sou míope, sou loiro e alto, e já comi mulheres lindas no puteiro de luxo que fica numa esquina do Largo do Machado, e sou escritor, tenho treze livros escritos e estão todos guardados no meu computador esperando que algum editor os descubra. Sim, eu sou um bom cidadão, vou á missa aos domingos e dou o dízimo, e não reclamo das oportunidades que não me foram dadas por Deus ou pelo diabo. Eles que se ocupem dos pobres, que precisam de piedade. Eu não, eu sou de uma raça diferente. (…) Calou-se. A dor na costela aumentara. E seus olhos voltavam a fechar-se, fazendo com que ele fizesse um esforço enorme para manter-se acordado. Viu que seus dedos moviam-se rapidamente, e subitamente percebeu que tinha o laptop sobre o colo, e escrevia exatamente tudo aquilo que lhe vinha á cabeça, que era exatamente tudo o que na sua realidade estava acontecendo. Experimentou gritar, e o gritou saiu em letras garrafais na telinha brilhante. Tocou sua costela e seu dedo indicador entrou completamente na ferida já seca e enegrecida. O revólver jazia ao lado. – Não pode ser! Não sinto dor! Eu jamais tiraria minha vida! (…) Silêncio, e as palavras reluziam na tela. O homem temia aquela morte narrada ao vivo por si mesmo, e decidiu mudar aquela história. Digitou um nome: Érika. Tinha dezesseis anos, estava nua na banheira ao lado. Era branquinha, os seios pequenos, os movimentos suaves, a voz lânguida e clara como um som de cítara. Talvez mais um personagem fosse uma salvação. Ela chamaria uma ambulância. – Érika! Érika estou morrendo! (…) Silêncio. Passos de menina, e aquele corpo delicioso e esguio apareceu apenas pela metade no corredor, exalando um perfume de flores que Deus ainda não havia inventado. Seus olhos arregalados fitaram aquela cena, mas ela nada disse. Depois voltou vestida com uma camisola de seda transparente e sentou ao seu lado. – Tu sabes o teu nome? O teu verdadeiro nome? E o homem percebeu que ainda não havia pensado nisso. – Érika, não sei meu nome, mas estou morrendo, me ajuda! E ela continuava a olhá-lo com aqueles olhos grandes, num misto de desdém e comoção. – Mas a história é tua! Como foi que me deste esse nome de Érika? Quem é Érika? Perguntastes-me se gosto desse nome? E quem foi que te feriu a costela e te perfurou até o íntimo da tua triste existência?  Ele olhou para a tela e começou a escrever coisas ininteligíveis, e a cada frase que escrevia a realidade o acompanhava, anoitecendo e clareando em questão de segundos, nevando, ventando, chovendo demais… Então ele escreveu que o quarto era limpo, branquíssimo, e ao longe tocava uma melodia de Tchaikovsky, alguma suíte do Quebra Nozes. E ele desejou escrever que estava curado, mas seus dedos petrificaram-se. Érika deitou-se ao seu lado e beijou-lhe na boca, e ficaram ali deitados. – Emmanuel, este é o seu nome, e essa é a tua obra prima. Estás escrevendo o teu melhor conto, aquele que narra a tua morte. E o autor, sereno e feliz pela primeira vez na sua vida, colocou um ponto final naquela história, e deixou a telinha brilhante apagar-se para sempre.

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O Triângulo Isósceles

4 04UTC fevereiro 04UTC 2010
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O Triângulo Isósceles
Marcelo era amigo de Leo, famoso ator que namorava Sylvia há nove anos. Eram amigos há mais de duas décadas, do tipo de amigos que dormiam na casa uns dos outros, e que, sem cerimônia, passeavam de roupas íntimas naquela casinha linda e aconchegante no Morumbi. Era um triângulo isósceles, brincavam eles.
Marcelo, poeta fracassado, vivia da ajuda de amigos e esporadicamente vendia seu corpo de mestiço delicioso para senhoras solitárias e casais moderninhos, esses onde os maridos de pênis minúsculos adoram ver suas esposas siliconadas sendo penetradas por trás por negros bem dotados.
Marcelo e Leo costumavam viajar juntos, já haviam ido ao Himalaia, ao K2, ao Pico da Neblina… claro, com as benesses do amigo rico. Já haviam se acostumado a dormir juntos, na mesma barraca de camping, desde seus tempos de adolescência, sem segundas intenções. Eram machos perfeitos desafiando a Natureza, correndo perigos inimagináveis, testando seus próprios limites. Sylvia achava aquilo tudo muito másculo, muito interessante, e secretamente agradecia Marcelo por manter Leo praticando “coisas de homem”, pois desde a primeira vez que Leo beijou outro homem numa novela Sylvia começou a ter dúvidas, e seu sexo nunca mais fora o mesmo.
Certo dia Marcelo apareceu subitamente na casa do casal. Chovia demais e ele procurara abrigo num lugar seguro e aconchegante. Ele trazia uma garrafa de um vinho barato, esperava degustá-la com o amigo, mas Leo não estava. Havia viajado para Curitiba para as gravações de uma minissérie. Mas na cabeça de Sylvia a verdade era outra. Na certa estava num daqueles ensaios do teatro, que na verdade eram pretextos para comer qualquer atriz novata que se apresentasse fácil e propícia.
Sylvia ficara feliz com a visita inesperada, pois temia raios e trovões, e era bom ter a companhia de Marcelo em uma noite daquelas. Ele era um bom amigo, sempre respeitador, como um irmão. Sylvia tirou aquela camisa molhada: “Olha só a bagunça que você está fazendo no meu tapete! Vamos logo tirando essas roupas imundas!”  E ele obedeceu, como obedecia suas clientes solteironas e carentes. Enfim, Marcelo tomou um banho quente, e vestiu uma cueca boxer e uma camiseta branca de Leo.
Seus músculos faziam relevos sob a camisa branca, e sob a cueca Sylvia fitava aquele membro enorme, que descansava sobre a coxa morena e torneada. Marcelo praticava Judo, natação e adorava montanhismo, enquanto Leo tinha uma beleza quase feminina, um corpo lisinho quase sem pêlos, a boca rosada, os cabelos cacheados como os de um anjo.
Sylvia com seu baby doll azul bebê e Marcelo vestindo aquela camiseta branca… ambos deitados no tapete assistindo um filme que pegaram pela metade e pouco prestaram atenção… ela aninhada no peito másculo daquele moreno, ele acariciando os cabelos daquela criatura pequenina, que tinha um seio fugitivo á mostra, e que ele, sem demonstrar vergonha, simplesmente recolocou-o no lugar, sob o tênue véu que o cobria.
Eles assitiram um filme até a madrugada, trocando carícias desinteressadas e comentando sobre coisas sem sentido, política, desastres, a nova novela das oito…Então ela deixou-se dormir, e ele, perfeito cavalheiro, levou-a nos braços até a sua cama.Parecia um Deus negro, másculo e enorme, carregando uma ninfa em seus braços sem o mínimo esforço.
Colocou-a na cama e deu-lhe um beijo de boa noite, na testa. Ela tentou agarrá-lo, beijar-lhe na boca, disse-lhe as vilanias mais deliciosas: “Me come, me chupa, quero seu leitinho na minha boca…” Mas ele ficou ali parado, atônito… por um momento que parecia uma eternidade.
Uma lágrima solitária escorregou pelo olho esquerdo do poeta. Ela perguntou se era por causa do amigo, ou seja, o marido dela. Pediu desculpas por ter perdido a calma, a compostura, mas é que Leo não a procurava, e Marcelo era tão atencioso, seu toque era tão perfeito… E nesse momento ele calou-a com o dedo indicador sobre o lábio. Olhou-a nos olhos e disse: “Não é a ele que tenho medo de trair ficando contigo. Na verdade, é Leo quem me ama, e não quero traí-lo. É ele quem se sacia do meu líquido quente, é ele quem me ama como se cada dia fosse o último dia das nossas vidas, entende?
Leo é o amor da minha vida! Não posso traí-lo.
E Sylvia virou-se para o lado sem chorar, e dormiu resignada, com a alma em chamas e os olhos secos como os de quem jamais havia chorado em sua vida.  E a noite apagou-se sem que fossem necessárias mais palavras.
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Fricção

2 02UTC fevereiro 02UTC 2010

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Matéria Prima

2 02UTC fevereiro 02UTC 2010

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Tempus Fugit

2 02UTC fevereiro 02UTC 2010

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Confesso

2 02UTC fevereiro 02UTC 2010

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Superfície

2 02UTC fevereiro 02UTC 2010